FRAGMENTOS DE A MAÇA NO ESCURO - Clarice Lispector
Por Beija Flor
E não era bom estar livre?
Era como se os anos tivessem passado e eu visse nesse rosto aquilo de que é feito o amor: de nós mesmos. E era como se até o amor mais real fosse feito de um sonho. Se isso é ser livre, então eu estava livre.
Como sou infeliz, disse-se então tranquila. Mas seria infelicidade aquela iminência para qual tudo de repente lhe pareceu debruçado, e aquele grande risco que uma pessoa corre? E se isso fosse exatamente a nossa felicidade.
Se naquela noite eu soubesse que tudo ia passar, eu teria me arriscado a ser mais infeliz. Mas na hora a gente pensa que é eterno. E acontece também que na hora eu não entendí que estava tendo exatamente aquilo que tinha ido buscar, não reconhecí totalmente, e pensei que estava errando.
Aquele domingo tinha sido a escura abertura para um mundo do qual mal adivinhamos a primeira alegria, e sabia que uma pessoa morre sem saber, e que havia infernos a que ela não tinha descido, e modos de pegar que a mão ainda não adivinhara, e modos de ser que por grande coragem ignoramos. E que ela própria era a outra jamais usada. Em mais de cinquenta anos de vida nada aprendera de essencial que viesse se acrescentar ao que já sabia – e o que nesses anos se mantivera intato fora exatamente o que ela não aprendera
Os fatos tantas vezes disfarçavam uma pessoa; se ela soubesse fatos talvez perdesse o homem inteiro.
Evitava com tato ser compreendida. Do momento em que fosse compreendida, ela não seria mais aquela coisa profundamente intransmissível que ela era e que fazia com que cada pessoa fosse a própria pessoa – pensava que era isso o que sucedia na comunicação. Seria dessa entrega de si própria que ela se guardava? Ou era medo da imperfeição com que as almas se tocam? Mas não só disso tinha medo. É que faltando-lhe o aprendizado da comunicação, tinha a delicadeza instintiva de se abster.
E eu, que foi que conseguí? Conseguí a experiência, que é essa coisa para a qual a gente nasce; e a profunda liberdade está na experiência. Mas experimentar o que? Experimentar essa coisa que nós somos e que vós sois? É verdade que a maior parte do modo de experimentar vem com dor, mas também é verdade que esse é o modo inescapável de se atingir o único ponto máximo, pois tudo tem um único ponto máximo, e cada coisa tem uma vez, e depois nos preparamos para a outra vez que será a primeira vez – e se tudo isso é confuso, nisso tudo somos inteiramente amparados pelo que somos, nós que somos o desejo.
Já não pedia mais o nome das coisas. Bastava-lhe reconhece-las no escuro. Depois, quando saisse para a claridade, veria as coisas pressentidas com a mão, e veria essas coisas com seus falsos nomes.
Aplicamo-nos em dar de nós o que não espante.
Tudo que a gente não entende se resolve com amor.
Quero a extrema beleza da monotonia.
E por que tentamos, de novo e de novo, a porta da compreensão? O essencial é destinado apenas a se cumprir, glória a Deus, amém.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
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