segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Doidas ou Santas?


Por: Virna Miranda

Esses dias, uma amiga me emprestou dois livros: Correio Feminino de Clarice Linspector e Doidas e Santas, de Martha Medeiros. Explicou-me ela que apesar da diferença de estilos e das décadas que separavam o conteúdo das obras, os livros guardavam semelhanças, já que ambos tratavam da mesma temática: o universo feminino.

Resolvi começar por Clarice, nunca tinha tido oportunidade de ler nada de um dos maiores nomes da literatura brasileira. O livro traz uma coletânea dos textos de uma coluna escrita pela autora em um jornal nos anos 60, abordando conselhos e dicas para o sexo frágil. Os imortais que me perdoem, mas por mais que alguns homens até hoje insistam em preferir unhas pintadas de renda aos sete vermelhos capitais, não tive muita paciência para mergulhar em recomendações sobre como uma mulher deve ser discreta e comportada para agradar sua alma gêmea.

Decidi então investir no sugestivo “Doidas e Santas”, também uma coletânea de crônicas, só que baseadas nos contratempos e conquistas das mulheres atuais, independentes, decididas, esclarecidas, batalhadoras, mas algumas vezes exageradas, dramáticas, frágeis, carentes, desesperadas por atenção ou por alguém que as escute e as entenda. Santas. Loucas. Ou seja: nós! Foi o meu primeiro contato com os pensamentos da gaúcha Martha, mas vamos combinar: foi amor a primeira vista. As histórias são realistas, e ao mesmo tempo bem humoradas, sem perder a conexão com a realidade, tratando de temas do nosso dia a dia de forma transparente e madura. A autora fala de amor e desamor. De encontros e separações. De conquistas e perdas. Dos homens, claro. Comenta livros, filmes, poesias. E fala de forma aberta sobre todos os sentimentos que nos rondam dia após dia nessa trajetória que chamamos de vida.

Um dos textos que chamou minha atenção foi “A tristeza permitida”. Porque ninguém tolera a tristeza? Porque as pessoas precisam nos ver sempre alegres, divertidos e bem humorados? “Ficar triste é um sentimento tão legítimo quanto a alegria.”, declara sabiamente Martha, e completa “Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta...”. E o que seria de nós se não fosse a tristeza para acender as cores da alegria? Sábia Martha!

Se quiser conhecer melhor a autora, visite o Blog da Martha Medeiros.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. Eu também tenho este livro da Clarice. Comprei por um impulso porque adorei a capa. Um tom de rosa quase lilás. Aliás acho que comprei porque combina com o meu quarto e enfeitou a cabeceira da minha cama por muito tempo porque eu também não conseguí ler...

    Não desista da Clarice. Ela é supreendeente e depois de você ter lido estas crônicas femininas de 4 décadas atrás vai se surpreender e gostar ainda mais dela. Recomendo A maçã no escuro e A hora da estrela.

    Adorei sua estréia. Beijo, Lore

    ResponderExcluir