segunda-feira, 28 de setembro de 2009

FRAGMENTOS DE A MAÇA NO ESCURO - Clarice Lispector
Por Beija Flor

E não era bom estar livre?
Era como se os anos tivessem passado e eu visse nesse rosto aquilo de que é feito o amor: de nós mesmos. E era como se até o amor mais real fosse feito de um sonho. Se isso é ser livre, então eu estava livre.
Como sou infeliz, disse-se então tranquila. Mas seria infelicidade aquela iminência para qual tudo de repente lhe pareceu debruçado, e aquele grande risco que uma pessoa corre? E se isso fosse exatamente a nossa felicidade.
Se naquela noite eu soubesse que tudo ia passar, eu teria me arriscado a ser mais infeliz. Mas na hora a gente pensa que é eterno. E acontece também que na hora eu não entendí que estava tendo exatamente aquilo que tinha ido buscar, não reconhecí totalmente, e pensei que estava errando.
Aquele domingo tinha sido a escura abertura para um mundo do qual mal adivinhamos a primeira alegria, e sabia que uma pessoa morre sem saber, e que havia infernos a que ela não tinha descido, e modos de pegar que a mão ainda não adivinhara, e modos de ser que por grande coragem ignoramos. E que ela própria era a outra jamais usada. Em mais de cinquenta anos de vida nada aprendera de essencial que viesse se acrescentar ao que já sabia – e o que nesses anos se mantivera intato fora exatamente o que ela não aprendera
Os fatos tantas vezes disfarçavam uma pessoa; se ela soubesse fatos talvez perdesse o homem inteiro.
Evitava com tato ser compreendida. Do momento em que fosse compreendida, ela não seria mais aquela coisa profundamente intransmissível que ela era e que fazia com que cada pessoa fosse a própria pessoa – pensava que era isso o que sucedia na comunicação. Seria dessa entrega de si própria que ela se guardava? Ou era medo da imperfeição com que as almas se tocam? Mas não só disso tinha medo. É que faltando-lhe o aprendizado da comunicação, tinha a delicadeza instintiva de se abster.
E eu, que foi que conseguí? Conseguí a experiência, que é essa coisa para a qual a gente nasce; e a profunda liberdade está na experiência. Mas experimentar o que? Experimentar essa coisa que nós somos e que vós sois? É verdade que a maior parte do modo de experimentar vem com dor, mas também é verdade que esse é o modo inescapável de se atingir o único ponto máximo, pois tudo tem um único ponto máximo, e cada coisa tem uma vez, e depois nos preparamos para a outra vez que será a primeira vez – e se tudo isso é confuso, nisso tudo somos inteiramente amparados pelo que somos, nós que somos o desejo.
Já não pedia mais o nome das coisas. Bastava-lhe reconhece-las no escuro. Depois, quando saisse para a claridade, veria as coisas pressentidas com a mão, e veria essas coisas com seus falsos nomes.
Aplicamo-nos em dar de nós o que não espante.
Tudo que a gente não entende se resolve com amor.
Quero a extrema beleza da monotonia.
E por que tentamos, de novo e de novo, a porta da compreensão? O essencial é destinado apenas a se cumprir, glória a Deus, amém.

Doidas ou Santas?


Por: Virna Miranda

Esses dias, uma amiga me emprestou dois livros: Correio Feminino de Clarice Linspector e Doidas e Santas, de Martha Medeiros. Explicou-me ela que apesar da diferença de estilos e das décadas que separavam o conteúdo das obras, os livros guardavam semelhanças, já que ambos tratavam da mesma temática: o universo feminino.

Resolvi começar por Clarice, nunca tinha tido oportunidade de ler nada de um dos maiores nomes da literatura brasileira. O livro traz uma coletânea dos textos de uma coluna escrita pela autora em um jornal nos anos 60, abordando conselhos e dicas para o sexo frágil. Os imortais que me perdoem, mas por mais que alguns homens até hoje insistam em preferir unhas pintadas de renda aos sete vermelhos capitais, não tive muita paciência para mergulhar em recomendações sobre como uma mulher deve ser discreta e comportada para agradar sua alma gêmea.

Decidi então investir no sugestivo “Doidas e Santas”, também uma coletânea de crônicas, só que baseadas nos contratempos e conquistas das mulheres atuais, independentes, decididas, esclarecidas, batalhadoras, mas algumas vezes exageradas, dramáticas, frágeis, carentes, desesperadas por atenção ou por alguém que as escute e as entenda. Santas. Loucas. Ou seja: nós! Foi o meu primeiro contato com os pensamentos da gaúcha Martha, mas vamos combinar: foi amor a primeira vista. As histórias são realistas, e ao mesmo tempo bem humoradas, sem perder a conexão com a realidade, tratando de temas do nosso dia a dia de forma transparente e madura. A autora fala de amor e desamor. De encontros e separações. De conquistas e perdas. Dos homens, claro. Comenta livros, filmes, poesias. E fala de forma aberta sobre todos os sentimentos que nos rondam dia após dia nessa trajetória que chamamos de vida.

Um dos textos que chamou minha atenção foi “A tristeza permitida”. Porque ninguém tolera a tristeza? Porque as pessoas precisam nos ver sempre alegres, divertidos e bem humorados? “Ficar triste é um sentimento tão legítimo quanto a alegria.”, declara sabiamente Martha, e completa “Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta...”. E o que seria de nós se não fosse a tristeza para acender as cores da alegria? Sábia Martha!

Se quiser conhecer melhor a autora, visite o Blog da Martha Medeiros.

domingo, 20 de setembro de 2009

A PRINCESA JEZEBEL QUE TINHA 12 JANELAS

Por Beija-flor ( ouví esta história de forma um pouco diferente e não sei quem é o autor )

Jezebel era uma princesa muito bela, inteligente e se achava o máximo, perfeita em tudo.
Um dia resolveu que queria se casar, mas pensou: como encontrar um pretendente a minha altura?
Pensou por 12 dias e encontrou a solução:
Vou fazer um desafio. O pretendente que conseguir se esconder de mim será o meu escolhido. Cada pretendente terá 3 chances.
Reis e príncipes de toda a redondeza se candidataram.
O príncipe frog que se achava o mais esperto e belo de todos estava convencido da sua vitória.
Primeiro se encondeu em um palheiro onde tudo se perde, mas Jezebel na terceira janela que abriu o avistou...
Na segunda chance se escondeu em um buraco bem fundo que ele mesmo cavou, mas Jezebel na quinta janela o avistou....
Na terceira chance nadou até uma ilha bem distante e lá se encondeu, mas Jezebel na décima janela o avistou e mandou avisa-lo que ele havia perdido todas as suas chances.
Enquanto isto um soldado que chegava na cidade encontrou um caneiro que tinha muita sede e o ajudou a encontrar o rio. O carneiro lhe disse: meu amigo sou o rei dos carneiros. Leve com você esta lã e se um dia precisar de algo, sopre-a que virei ajudar-lhe com prazer.

Mais adiante encontrou uma águia que estava presa em uma armadilha e desarmou a armadilha soltando a águia que lhe disse: meu amigo sou a rainha das águias. Leve com você esta pena e se um dia precisar de algo, sopre-a que virei ajudar-lhe com prazer.

Mais adiante encontrou uma formiga que estava se afogando e salvou-a. Ela lhe disse: meu amigo sou a rainha das formigas. Leve com você esta folha e se um dia precisar de algo, sopre-a que virei ajudar-lhe com prazer.

Chegando no vilarejo avistou Jezebel na janela do castelo e se encantou com a sua beleza. Logo depois soube do desafio e resolveu se candidar. Pensou, pensou e teve uma idéia: Soprou a lã e pediu ajuda ao carneiro que veio rapidamente: Como posso ajudar-lhe amigo? O soldado contou o desafio e o carneiro logo teve uma idéia. Você vai se disfarçar de carneiro e vai se misturar entre o meu rebanho, será impossível encontra-lo. Jezebel começou a procurar e na décima janela o avistou.
O soldado pensou, pensou e teve outra idéia: Soprou a pena e pediu ajuda à águia que também veio rapidamente: Como posso ajudar-lhe amigo? O soldado contou o desafio e a águia logo teve uma idéia. Segure em mim que vou voar para uma ilha bem longe e será impossível encontra-lo. Jezebel começou a procurar e na décima primeira janela o avistou.
O soldado se desesperou, era sua última chance e só restava pedir ajuda à sua amiga formiga, mas como criatura tão frágil e pequena poderia ajudar-lhe? Soprou a folha e a formiga veio rapidamente: Como posso ajudar-lhe amigo? O soldado contou o desafio e a formiga logo teve uma idéia.Tenho um plano, mas precisarei da sua coragem. Vou transformar-lhe em uma formiga e você subirá pelo vestido de Jezebel e ficará imovel bem no decote dela, mas prete atenção, pois qualquer movimento pode lhe causar cócegas e ela pode lhe esmagar. Você topa o desafio? Sim, disse imediatamente o soldado e colocaram o plano em ação imediatamente. Jezebel começou a procurar e na décima segunda janela perdeu as esperanças e mandou avisar ao soldado que ele havia vencido. Neste momento ele voltou a sua forma de homem e apareceu na frente de Jezebel. Ela se assustou e perguntou: Onde você estava todo este tempo? O soldado disse: estava bem embaixo dos seus olhos e você não olhou, por isto não me encontrou...

Casaram-se e foram felizes para sempre, como em toda história de conto de fadas, exceto a da chapeuzinho Vermelho que não tinha príncipe. Não contem para ninguém, mas ela confessou para mim que se soubesse teria se casado com o caçador.

domingo, 6 de setembro de 2009

Devaneio Material I( Sonho das águas)

por Menina da Capadócia

Outro dia,
pequenina,
de gotinha
em gotinha
eu passava
passeava por aí
depois veio
a chuvarada
a molhadeira
o aguaceiro
e a correnteza
me botou para correr

eu corria
percorria
meus caminhos
inventados
pelas brechas
pelos cortes
bem marcados
pela água
que escorria
Esparramava
E me largava
e alagava
todo canto que eu cantava para o ar

caí de pé,na cachoeira
pelas calhas
sobre as telhas

corri deitada
pelas beiras
das calçadas
das esquinas

fiz-me poça
e fim de poço
uma fossa!
e eu não posso
não podia
não sabia
Mas eu queria!!
novamenteme espalhar...

Foi um dia
um belo dia
eu encontrei
um marinheiro
e lhe disseque eu queria
ser o mar

O marinheiro
respondeu
se fosse eu,
continuava
sendo a mesma
sendo aquela
sendo esta
Água-viva
mais que viva
porque a vida e
o tempo
e o andamento
e o período e
a estação
a rotação
a temporada
a alvorada
haviam de transformar

De ensinar.

(Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño)

Vida

Por "Rosa dos ventos"

'Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se!Muita gente guarda a vida para o futuro. Mesmo
que a vida esteja na geladeira, se você não a viver, ela se deteriorará. É por isso que tantas pessoas se sentem emboloradas na meia-idade.Elas guardam a vida, não se entregam ao amor, ao trabalho, não ousam, não vão em frente. Não deixe sua vida ficar muito séria, saboreie tudo o que conseguir: as derrotas e as vitórias, a força do amanhecer e a poesia do anoitecer. Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz você precisa aprender a gostar de si, a cuidar de si e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas...é cuidar do Jardim para que elas venham até você.'
Mário Quintana

Santos e Loucos

Por Rosa dos Ventos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pelapupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelasinjustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte deaprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, paraque nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca meesquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
Oscar Wilde

Palavras

por Beija-flor


Palavras ao vento
Palavras bem ditas
Palavras de amor
Palavras de carinho
Palavras confusas
Palavras perdidas
Palavras honestas
Palavras simples
Palavras complexas

São só palavras, mas o que são palavras?
Palavras são elos?
Palavras são caminhos?
Palavras é compartilhar?

Existe felicidade sem compartilhar?
Seriam então as palavras um elo para a felicidade?
Um caminho para o amor?
Uma forma de compartilhar?

Somos 5 mulheres de palavra!!! Sem certezas, sem soluções, apenas compartilhando a busca pelo novo, pelo belo, pelo honesto, pelo amor.

Na nossa árvore de palavras colhemos contos, textos, frases, pérolas, bobagens. Compartilhamos com vocês em busca da felicidade e do aprendizado da troca.